16/04/2010


INCLUSÃO SOCIAL E MULTICULTURALISMO
Celina Camargo Bartalotti

Inclusão social tem sido um dos temas mais recorrentes na atualidade. Seja no âmbito do trabalho, da escola, do lazer, discute-se o princípio de que é importante garantir que todas as pessoas possam desfrutar dessa condição tão desejada – a de incluídos. Mas será que se tem clareza do que isso significa realmente? Afinal que princípios norteiam esse objetivo tão nobre?
Falar em inclusão social é, principalmente, falar em sociedade para todos; e “todos” é uma palavra que não admite exceção: “todos” significa TODOS mesmo. Já começamos a entender porque tanto se fala em incluir e porque isso, às vezes, parece muito difícil, senão utópico.
Vivemos em uma sociedade acostumada a classificar as pessoas por etnia [1], credo, origem, condições sócio-econômicas, condições físicas ou psíquicas; mais do que isso, acostumada a atribuir diferentes valores às pessoas enquadradas em cada uma dessas categorias. E valores negativos atribuídos a determinadas categorias geram exclusão social, ou seja, geram movimentos de afastamento, de rejeição, de recusa de oportunidades, de eliminação – excluir nada mais é do que tentar eliminar, senão da vida, pelo menos da convivência. Incluir é, portanto, o contrário disso – é aproximar, é conviver com igualdade de direitos e oportunidades.
E como esse tema se relaciona à questão do multiculturalismo? Segundo o dicionário Michaelis[2], multiculturalismo se define como a prática de acomodar qualquer número de culturas distintas, numa única sociedade, sem preconceito ou discriminação. Paulo Freire, no seu livro “Educação como Prática da Liberdade [3]” afirma que o multiculturalismo não se constitui em uma justaposição de culturas, mas na liberdade conquistada de convívio e respeito a cada cultura, o que só é possível quando diferentes culturas crescem juntas e não em constante tensão. E isso, ressalta Paulo Freire, não é algo natural ou espontâneo, mas fruto de uma ação que implica decisão, vontade política, mobilização, organização de cada grupo cultural com vistas a fins comuns. Assim, falar de multiculturalismo é ir além da constatação de que existem várias culturas convivendo no mesmo espaço ou tempo histórico, mas entender que essa convivência implica em respeito, igualdade de oportunidades, trocas sociais, ou seja, implica em verdadeira inclusão social.
Bem, já definimos inclusão como o movimento de construção da sociedade para todos, e multiculturalismo como a possibilidade de convivência e expressão de diversas culturas em uma sociedade, sem discriminação ou preconceito. Falta pensar nos mecanismos que possam promover essa situação – temos que falar aqui em mecanismos relacionados às políticas públicas e aqueles relacionados à convivência entre as pessoas.
É preciso que sejam desenvolvidas políticas públicas que garantam a efetiva participação social e, ao mesmo tempo, o legítimo direito de viver de acordo com sua cultura em um meio marcado pela diversidade. Cabe ao poder público definir políticas de eliminação de barreiras, sejam elas lingüísticas, religiosas, de costumes, de tal forma que cada cidadão tenha possibilidade de viver plenamente.No que se refere à convivência entre as pessoas, isso já é uma ação mais ligada aos nossos movimentos de aproximação ou afastamento em relação a aqueles que considero diferentes de mim e, por isso, menos valorosos, ou perigosos. Falamos aqui do que se convencionou chamar de barreiras atitudinais, ou seja, aquelas barreiras invisíveis que levantamos entre nós e os outros – essas devem ser derrubadas por cada um em seu dia-a-dia.

[1] Etnia é o conceito utilizado em substituição ao conceito de raça. Entre os homens, raça existe apenas uma, a Humana.
[2] http://michaelis.uol.com.br/
[3] FREIRE, P. Educação como prática da liberdade. 21 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992

30/07/2009

A INCLUSÃO SOCIAL DA CRIANÇA COM DEFICIÊNCIA:

REFLETINDO SOBRE O “SER CRIANÇA” NA CONDIÇÃO DA DEFICIÊNCIA

Por Celina Camargo Bartalotti


One O'Clock.....
Upload feito originalmente por charlotte.morse

A análise do “ser criança” na condição de deficiência envolve compreender dois aspectos: a concepção de criança e a concepção de deficiência. Vivemos em uma sociedade que vê a criança como um “vir-a-ser”, como um indivíduo em formação que se prepara para ser algo que ainda não é. O presente da criança, então, mostra-se como possibilidade, como uma base para o que ela será no futuro. E quando pensamos na criança com deficiência? Como se dá o olhar sobre essa criança que foge ao padrão esperado, ao desejado; uma criança que contraria, em primeira instância, o sonho, em uma sociedade marcada pela busca de uma perfeição, tantas vezes inatingível?

Essas são as questões que nortearam o arquivo que disponibilizamos aqui, apresentado no IV Congresso Brasileiro de Reabilitação, em junho de 2009.

Para acessar a apresentação acesse a Biblioteca Digital do Blog: http://toeinclusao.vilabol.uol.com.br/index.html

03/06/2009


QUEM TEM O DIREITO DE ESTAR NA BALADA?


Da BBC Brasil: Discoteca na Espanha tem noite exclusiva para deficientes


Domingo é dia de matinê especial em Barcelona. Uma das discotecas mais badaladas da cidade espanhola reserva a noite para que portadores de deficiências mentais possam dançar e paquerar livremente. (...) A matinê especial funciona há um ano e foi criada pela Fundação Ludalia, que auxilia portadores de deficiências mentais. A festa, que começa às 17h30 e termina às 21h, é exclusiva para pessoas entre 18 e 45 anos com Síndrome de Down, paralisia cerebral e outras deficiências.
Mãe de um portador de deficiência mental, a diretora da fundação, Consól Ferrer, afirma que o projeto nasceu por causa da falta de alternativas de lazer para estas pessoas. Segundo ela, alguns lugares "tratam os deficientes de maneira infantil". A ideia da matinê especial surgiu em 2001. A primeira tentativa, no entanto, fracassou quando os organizadores tentaram criar uma noite de integração entre deficientes e pessoas sem deficiências. "Foi um desastre. Ali ficou claro que eles precisavam de um espaço próprio. Eles têm a mesma vontade de dançar, se divertir, estar com amigos e paquerar, como qualquer outro jovem", afirmou à BBC Brasil a monitora Ruth Ruiz. A diretora da Fundação Ludalia também afirma que a experiência fez com que eles decidissem criar uma noite exclusiva para os jovens deficientes. "Sei que parece uma contradição, fazer uma noite exclusiva quando pedimos integração. Mas, misturar jovens deficientes com os que não são para que façam amigos e arranjem namorados, não é um objetivo realista", afirma.
Reportagem completa em:

http://musica.uol.com.br/ultnot/bbc/2009/05/22/ult2628u574.jhtm


Pois é, logo teremos baladas para obesos (afinal, eles podem se sentir intimidados entre magros...); baladas para muito altos, ou muito baixos...
Por que será que a tentativa da “balada inclusiva” fracassou? Será porque os “sem deficiência” ficaram incomodados com a presença dos diferentes? Não se sabe, isso a reportagem não conta.
Diz a diretora da Fundação (e mãe...): “misturar jovens deficientes com os que não são para que façam amigos não é um objetivo realista”...
Aparentemente jovens “deficientes” (SIC) só podem ser amigos de outros jovens “deficientes” e de preferência com o mesmo tipo de deficiência – observem que a tal balada era apenas para pessoas com deficiência intelectual.
O pior preconceito é aquele que se esconde atrás do discurso da beneficência e da proteção: não queremos que eles se sintam rejeitados no mundo cruel, assim vamos criar mundinhos só para eles, pois entre os iguais ninguém perceberá que sua presença, na verdade, é um inconveniente.
É, temos ainda muito o que caminhar para poder, um dia, falar em sociedade realmente inclusiva...

27/03/2009

Contribuições



A deficiência intelectual no imaginário social:
termos, imagens, conceitos, definições e classificações.

Autor: Prof. Dr. Waldir Carlos Santana dos Santos
Contato: waldirsantana@uol.com.br

Texto publicado pelo autor em abril/2002:
http://walsantanapsicologia.weblogger.com.br/weblog_20020428.htm

Revisado e adequado à terminologia, com consentimento do autor em março/2009, e publicado no Blog Terapia Ocupacional e Inclusão Social: www.toeinclusao.blogspot.com

Demais locais que também publicaram o mesmo texto:
CAMTO – Centro Acadêmico de Terapia Ocupacional da São Camilo – SP:
http://camto.br.tripod.com/trabalhos/dmimaginario.html
Universo Autista:
http://www.universoautista.com.br/autismo/modules/sections/index.php?op=viewarticle&artid=165
PRO-FALA:
http://www.profala.com/artto7.htm


Historicamente, as deficiências - à exemplo de outros fenômenos que suscitam fortes emoções - têm gerado as mais variadas noções, concepções, visões, metáforas, imagens, conotações...


Os termos utilizados para designar as pessoas com deficiências, além de apresentarem, de modo geral, um significado negativo, não correspondem, necessariamente, às reais condições dessas pessoas. São denominações que dão a idéia de perpetuidade, não dando espaço para a esperança quanto à modificação das condições do indivíduo. Trata-se de substituir a pessoa por sua circunstância.

Existem termos inconvenientes por causa das conotações adquiridas em seu uso. Por exemplo: idiota, imbecil, tolo etc.

Uma das áreas mais férteis para a difusão de imagens negativas da deficiência é a arte. Freqüentemente, os maus dos contos infantis, das novelas, dos filmes e dos desenhos animados são sujeitos com algum tipo de deficiência. Esta tendência possibilita interpretações as mais variadas. Uma interpretação imediata é aquela que relaciona a deficiência à frustração, e esta à agressividade ou à maldade. Em um nível mais profundo, numa interpretação mais analítica, a classificação pode ser vista como uma tentativa de se afastar o risco da deficiência situando-a naqueles indivíduos considerados estranhos ao padrão de normalidade instituído, no qual pensamos nos situar.

A atribuição de um significado negativo às situações de deficiência se dá muito explicitamente quando empregamos suas denominações para insultar ou repreender. Neste uso aparece clara a função agressiva ou repressiva. Ao insultar ou repreender associando um indivíduo ou conduta a uma deficiência, estamos exorcizando-a, tentando afastá-la.

Os meios de comunicação social estão repletos de apreciações comiserativas gratuitas. Neste caso específico, as próprias instituições prestadoras de serviços especializados muito têm contribuído; basta recordarmos as várias campanhas veiculadas na televisão, onde, invariavelmente, o sujeito com deficiência é apresentado em seus aspectos mais limitantes, como estratégia para sensibilizar o telespectador a prestar sua contribuição financeira, para a manutenção dos serviços especializados que lhe são prestados. Na maior parte dos casos a compaixão tem como pressuposto a infelicidade do sujeito com deficiência, uma vez que o situa numa posição inferior: a dos protegidos ou protegíveis. A este propósito, nossos textos constitucionais não fogem a esta regra; um exame superficial das nossas constituições federal, estadual e municipal (São Paulo), é suficiente para a confirmação desse fato.

A piedade e a misericórdia geram exclusão da condição humana plena. Da mesma forma, a exaltação de certas aquisições ou conquistas desses indivíduos - como pintar um quadro, alfabetizar-se, fazer "ponta" numa telenovela - cumpre a mesma função.1

Penso ser inconveniente a apresentação da deficiência privilegiando o fato em si, desconsiderando-se sua prevenção, assim como os atendimentos mais adequados e a possível inclusão desses sujeitos. A ciência e a técnica estão logrando diminuir a ocorrência de nascimentos de pessoas com deficiência intelectual, assim como têm possibilitado a leitura de textos convencionais aos cegos e permitido que pessoas com deficiências físicas dirijam automóveis... Questiono, entretanto, até que ponto esses avanços não representam, pura e simplesmente, a manifestação sutil de uma tradicional consciência fatalista, que se baseia no também tradicional binômio resignação/subsídios.

Ao comentar sobre os cartazes publicitários sobre a deficiência intelectual que, invariavelmente, trazem a figura de um sujeito com Síndrome de Down, preferencialmente sorrindo, Demétrio Casado (1991, p.45), afirma que “...as versões doces das situações de deficiência servem para aliviar o temor e o rechaço que a mesma inspira, sendo, portanto, ...uma forma de nos protegermos de nossa própria angústia ante o risco do que percebermos como um mal. Também estamos propiciando a aceitação dos sujeitos da deficiência por parte de uma sociedade com uma tradicional disposição restritiva.”

Em meu cotidiano profissional é comum ouvir relatos de familiares que atribuem às pessoas com deficiência intelectual a característica de infantilidade. Tenho observado, nas mais diversas situações, que essa "imagem infantilizada" costuma vir acompanhada de reações (e ações) que restringem, sobremaneira, as possibilidades de melhor desenvolvimento desses indivíduos. No caso de pais e familiares a conseqüência desta representação é a menor oferta de oportunidades para a aquisição de autonomia, seja pela maior tendência de isolá-los em casa ou instituição especializada, seja pelo baixo nível de atenção dispensada (quantitativa e qualitativamente falando). Nestes casos, percebo muitas dificuldades dos familiares em deixarem de comparar seus filhos que têm deficiência intelectual com outras crianças ou adolescentes (da mesma faixa etária) tidos como normais. Esta constante comparação se configura, ao meu entender, como resistência em aceitá-los em sua condição diferenciada.

Quando em seu artigo 203, inciso V, nossa Constituição Federal garante “...um salário mínimo de benefício mensal à pessoa portadora de deficiência e ao idoso que comprovem não possuir meios de prover a própria manutenção ou de tê-la provida por sua família, conforme dispuser a lei”, não estará entendendo a deficiência enquanto um fator tão limitante que precisa ser recompensado com dinheiro? Ou estará assumindo sua parcela de culpa? Existem culpados?

O importante é notar que - apesar da aparente justiça social - este artigo contribui para a reiteração da imagem ligada à impossibilidade, à incapacidade, pois desqualifica qualquer idéia de incluir esse indivíduo à sociedade através do trabalho ou participação. É óbvio que isso não está explícito, mas pode suscitar interpretações como esta e a formação de imagens deterioradas em relação aos cidadãos que têm deficiência, principalmente intelectual.

Em função dessas imagens estereotipadas todos os conceitos utilizados para classificar pessoas com deficiência intelectual acabaram sempre assumindo uma conotação pejorativa. Basta mencionarmos alguns deles para confirmarmos esta afirmação: idiota, imbecil, tolo, retardado, demente...

Em que pese as evidências em contrário, em nossa sociedade associa-se a deficiência à irrecuperalidade, à incapacidade para o estudo, à incapacidade para o trabalho e a muitas outras incapacidades. Em virtude disso, nossos cidadãos costumam responder aceitavelmente aos sucessivos estímulos mendicantes das pessoas em tal condição ou de seus representantes "protetores". Paralelamente, nossas autoridades persistem em sua política de preferência aos subsídios em detrimento da reabilitação e de medidas que possam assegurar (ou ao menos contribuir para) a eliminação das barreiras físicas e sociais.


1. SANTOS, Waldir Carlos Santana dos. O Difícil Processo de Ressignificação da Deficiência Mental: Os Profissionais Falam de Sua Prática. Dissertação de Mestrado. PUC/SP, 1995.



06/03/2009

sobre iguais e diferentes...


Igual-desigual
(Carlos Drummond de Andrade)

Eu desconfiava:
todas as histórias em quadrinho são iguais.
Todos os filmes norte-americanos são iguais.
Todos os filmes de todos os países são iguais.
Todos os best-sellers são iguais.
Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol são
iguais.
Todos os partidos políticos
são iguais.
Todas as mulheres que andam na moda
são iguais.
Todas as experiências de sexo
são iguais.
Todos os sonetos, gazéis, virelais, sextinas e rondós são iguais
e todos, todos
os poemas em versos livres são enfadonhamente iguais.

Todas as guerras do mundo são iguais.
Todas as fomes são iguais.
Todos os amores, iguais iguais iguais.
Iguais todos os rompimentos.
A morte é igualíssima.
Todas as criações da natureza são iguais.
Todas as ações, cruéis, piedosas ou indiferentes, são iguais.
Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou
coisa.
Não é igual a nada.
Todo ser humano é um estranho
ímpar.


Comentando: é desse reconhecimento de que cada ser humano é impar que brota a nossa capacidade de acreditar em cada um deles como possibilidade...

24/11/2008

VÍDEO SOBRE DEFICIÊNCIA E INCLUSÃO




Entre o ser e o estar,
Entre a idéia e a concretude,
As ações do cotidiano que se perpetuam,
Inclusão, uma escolha de vida.

Barbara Cristina Mello
Terapeuta Ocupacional


Este vídeo foi produzido com a ajuda de muitas pessoas, pois queríamos que diferentes olhares pudessem compartilhar aquilo que fazemos em nosso dia a dia quando acionamos na relações do fazer e do ser.
Agradecemos especialmente a todos os fotógrafos que colaboraram com este projeto, cedendo suas imagens tão preciosas.
Obrigado a todos!

29/10/2008

Terapia Ocupacional - em busca da complexidade do simples


A Terapia Ocupacional é uma profissão da área da saúde, que trabalha com aspectos bastante particulares e, ao mesmo tempo, aparentemente simples da vida humana – as atividades realizadas pelas pessoas em seu cotidiano.
Digo aparentemente simples porque para aqueles que realizam suas ações cotidianas sem grandes dificuldades, ou que encontram, por si, soluções para os obstáculos que vão encontrando ao longo do seu caminho, pensar que um profissional dedica uma vida de estudos e intervenções para compreender atividades, rotinas, cotidiano, pode parecer até banal.
Mas quando pensamos naquelas pessoas que, pelos mais variados motivos, encontram-se de alguma forma impedidas de exercer plenamente suas potencialidades, pessoas que enfrentam obstáculos para realizar aquilo que para nós é tão simples, começamos a nos aproximar da complexidade da Terapia Ocupacional.
Eu construí, há algum tempo, uma frase que venho repetindo ao longo da minha vida profissional, quando quero expressar o que, para mim, é a essência da profissão: ser terapeuta ocupacional é acreditar, incondicionalmente, na possibilidade do outro, na sua capacidade de construir formas de viver plenamente seus sonhos.
E é por acreditar na possibilidade do outro que podemos compreender a complexidade existente naquilo que é, em essência, simples – andar, alimentar-se, trabalhar, brincar, dançar, usar um computador, pintar, vestir-se, banhar-se... ações tão banais e ao mesmo tempo tão cheias de significado na vida de cada um de nós.
Só quando nos deparamos, por exemplo, com alguém que não consegue levar o próprio alimento à boca, dependendo de outro para realizar uma atividade tão íntima como alimentar-se, é que percebemos que as coisas simples do cotidiano são, essencialmente, aquelas que nos significam como sujeitos.
Possibilitar ao outro (re) tornar-se sujeito de sua própria vida – isso é ser um terapeuta ocupacional.
Celina Camargo Bartalotti
Terapeuta Ocupacional

02/09/2008

APROXIMANDO-SE DA DEFICIÊNCIA: uma relação possível




Quando pessoas que nunca pararam para pensar em que momentos se aproximam, e como se aproximam de outras pessoas, muitas vezes deixam de refletir e experimentar ou vivenciar o acontecido. As redes e atravessamentos que acontecem neste ato são incríveis e inimagináveis, mas, muitas destas pessoas, acabam por se perguntar isso somente quando se deparam com situações inusitadas.

Observei muitas situações durante esta semana e percebi que parte dos encontros entre pessoas com e sem deficiência, quando acontecem, se tornam inusitados, por isso o atravessamento é claro, a lembrança é nítida e a aproximação pura e simplesmente pode desembocar por duas vertentes: a primeira é recheada pelo sentimento da pena, da dó pela condição do outro... com esta eu não concordo; e a outra, uma aproximação de curiosidade que acontece como qualquer outra, afim de desvelar o que há por traz da deficiência.

Então gostaria que me respondessem e se respondessem, mas antes que refletissem:

O QUE HÁ POR TRÁS DA DEFICIÊNCIA?

Nesta hora, devem estar se perguntando ou buscando respostas. Meu intuito não é oferecê-las, mas fazer com que todos parem para pensar um pouco mais sobre esta possível aproximação. E que outros temas possam invadi-los e se desdobrarem em milhares de possibilidades.

O trabalho com a pessoa com deficiência é um trabalho de oportunidades: de escolha, de apropriações, de desejos, de desafios, e tantos outros que sejam importantes à necessidade daquele instante. Já dizia Reinaldo José Gomes da Silva, quando fala do papel do terapeuta e do educador que trabalha com crianças, principalmente daquelas que tem deficiência, que estas pessoas são responsáveis pelo desenvolvimento de uma relação dialética, ou seja, “uma relação que possa permitir o exercício e a integração de curiosidade, paciência e atenção tanto da parte do adulto quanto da criança em um processo de conhecimento de si e do outro”.

Com esta mesma relação dialética estabelecida, é possível, segundo o mesmo autor, o exercício da curiosidade, da busca e da descoberta do mundo e de pessoas (inclui-se aqui as relações sociais), da manifestação de vontades, da descoberta de limites (de si e do outro), de seu reconhecimento e do respeito às próprias necessidades e desejos.

A partir destas palavras, o que agora podemos fazer? Quais são os pensamentos que nos permeiam?

Independente de sermos profissionais – terapeutas, acompanhantes, educadores – ou pais, precisamos viver, e saber o que é possível a cada um de nós. Uns vão mais longe com esta história, e outros param por aqui. Cada um faz suas escolhas, cada um, espero eu, que saiba de seus limites, e que a partir daqui, faça o justo e o necessário a cada cena que se aproxima e se constrói a partir da vivência e da experiência de si e do outro.

Barbara Cristina Mello
Terapeuta Ocupacional

Referência bibliográfica:
SILVA, Reinaldo José Gomes da. O deficiente mental, esse ser desejante. Revista de Terapia Ocupacional da Universidade de São Paulo. São Paulo: vol.1, nº1, agosto/1990.

25/08/2008

DEFICIÊNCIA E IDENTIDADE




O nosso nome é algo que não escolhemos, mas que carregamos e que faz parte de nós por todos os caminhos de nossa vida.
O primeiro nome, no entanto, não é nossa única identificação, temos também o nome da nossa família, que nos garante o sentimento de pertencer a algo – nesse caso, um espaço familiar. O primeiro nome nos distingue, o segundo nos iguala.
Mas, na vida, vamos ganhando outros nomes. Quem nunca teve um apelido? Qual o motivo desse apelido? Ter um apelido pode ser bom, amistoso, ou pode ser ruim, dependendo do valor que esse apelido carrega.
Existem ainda outros nomes, nomes que se relacionam com nosso fazer, e que são essenciais para a construção de nossa identidade: estudante, professor, terapeuta ocupacional, psicólogo, mãe, pai, irmão, filho etc. São nomes que também nos fazem pertencer a algo, a uma categoria, com a qual nos identificamos.
E assim vamos construindo nossa identidade: com nomes que nos são atribuídos, outros que escolhemos, alguns que vamos abandonando ao longo da vida (mas que são parte de nossa história)... os nomes que carregamos são muito importantes na nossa constituição como sujeitos.
Antes de eu me chamar eu já era chamada por aqueles que estavam à minha volta – do que eu era chamada se tornou aquilo pelo que me chamo. Pensar em nós mesmos com outro nome dá uma sensação de estranheza, como se não fosse mais você. Assim, os nomes que me são atribuídos vão se tornando parte daquilo que sou, parte de minha identidade.
Podemos dizer, então, que a identidade não é um fenômeno individual, mas um fenômeno social, que se desenvolve nas relações entre as pessoas. E também não é algo imutável, pois o homem é um ser em movimento, em constante aprendizado. Assim, somos nós mesmos, somos aquilo que somos, mas aquilo que somos se enriquece, modifica, acrescenta...
Mas porque falo nisso? Porque aqui quero discutir a importância das palavras, dos nomes atribuídos e escolhidos, e, particularmente, dos nomes atribuídos à deficiência e às pessoas que constroem sua vida nessa condição peculiar.
Se pensarmos no nascimento de uma criança com deficiência, a primeira palavra que lhe é atribuída, o nome, já vem normalmente adjetivada pela deficiência (muitas vezes o nome deficiência vem antes do nome próprio – antes de ser o João, ele já é o Down). Assim, não há identidade para além da deficiência, essa condição é algo que fará parte do individuo. O mesmo acontece, embora não da mesma maneira, com as deficiências adquiridas – quem sou eu, será que sou o mesmo de antes? A reconstrução da percepção de si, do seu papel na sociedade, passa pela reconstrução de sua identidade na condição da deficiência.
Ora, se pensarmos nos nomes que são atribuídos às pessoas com deficiência – incapazes, coitados, anjos, problemas, doentes, excepcionais etc., podemos entender o impacto desses na construção ou reconstrução da identidade – do que me chamam? Que valor é atribuído a esse nome? Que portas esse nome me abre ou fecha? Que auto-imagem me permite construir?
O que nos reporta à terminologia utilizada para designar essa parcela da população; não mais o “deficiente”, substantivo totalizador, não mais o “portador de deficiência”, afinal a deficiência não é algo que se porta, como um documento. “Pessoa com deficiência”, essa é a forma mais adequada, pois a deficiência não é um apêndice, mas algo que faz parte do sujeito, algo que o identifica tanto quanto outras coisas (o nome, a atividade, os gostos, características pessoais...).
O que nos leva a outros termos – especial, com necessidades especiais – esses são os termos da negação – é uma pessoa com deficiência, mas é como se não fosse, porque é especial. A deficiência, apresentada como algo indesejável, não deve ser nomeada; assim, ao chamar o sujeito de especial foge-se do confronto com sua real condição, que obviamente é incômoda, gera estranheza, desconforto. Afinal ninguém quer ser uma pessoa com deficiência intelectual, mas todos gostamos de nos sentir especiais, não é?
Nomear corretamente é uma tarefa importante, nem sempre fácil, mas essencial para as pessoas com deficiência. Nomes exprimem significados; significados permeiam atitudes; atitudes desencadeiam ações.

Profa Dra Celina Camargo Bartalotti
Terapeuta Ocupacional



Para ler mais sobre identidade:
CIAMPA, A. C. In: Lane, Silvia. (org.) Psicologia Social: O Homem em Movimento. Psicologia e Sociedade, v. 19, p. 17-18, 2007
CIAMPA, A. C. A Estória do Severino e a História da Severina - Um Ensaio de Psicologia Social. 1/8. ed. São Paulo: Brasiliense, 2005. v. 1. 248 p.